as Periferias Existenciais da amazônia
Vozes, experiências e formas de existir a partir das margens
Contexto
O pontificado do Papa Francisco imprimiu uma inflexão decisiva na reflexão teológica contemporânea ao recolocar a escuta das periferias existenciais no centro da vida da Igreja. Mais do que territórios geográficos, essas periferias dizem respeito a contextos humanos marcados por vulnerabilidade, invisibilidade social e exclusão simbólica — mas também por saberes, resistências e formas próprias de esperança.
É a partir desse horizonte que o Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral (DSDHI) estruturou um projeto internacional voltado à produção teológica fundamentada na escuta direta de pessoas que vivem nessas realidades, em diferentes regiões do mundo.
Fotografia.
DESAFIO
O principal desafio do projeto consistiu em converter experiências de vida, narrativas locais e testemunhos humanos em matéria teológica qualificada, capaz de dialogar com o Magistério de Francisco e contribuir de modo concreto para a reflexão da Igreja em âmbito local e global.
Tratava-se não apenas de coletar dados, mas de reconhecer a experiência humana como lugar teológico, exigindo rigor metodológico, sensibilidade ética e uma abordagem capaz de articular escuta, imagem e interpretação.
Estratégia
A estratégia foi estruturada a partir de três eixos complementares:
Escuta qualitativa aprofundada, por meio de entrevistas individuais e grupos focais;
Diversidade territorial e simbólica, garantindo representatividade continental, urbana e social;
Articulação teológica, conectando os relatos coletados aos principais documentos do pontificado de Francisco.
No Brasil, a etapa de escuta concentrou-se em Manaus (AM), Boa Vista (RR), Porto Velho (RO) e Assis Brasil (AC) — territórios amazônicos atravessados por fluxos migratórios, presença indígena significativa e profundas desigualdades estruturais.
Abordagem Metodológica
A metodologia adotada foi qualitativa, com entrevistas individuais e grupos focais realizados com o apoio de agentes pastorais locais — pessoas com vínculo de confiança e proximidade com os participantes.
As entrevistas foram orientadas por dez eixos temáticos, definidos pelo DSDHI, que estruturaram tanto a escuta quanto a análise posterior: Sabedoria das margens, Vulnerabilidade e ternura, Consciência ecológica, Perspectivas das mulheres, Revelação e alegria, Cristãos na esfera pública: novos paradigmas, Esperança e fé, Superação do clericalismo, Acolhida de migrantes e refugiados, Diálogo e encontro.
Todo o processo foi registrado por meio de fotografias, vídeos e transcrições, com consentimento informado dos participantes.
Produção Audiovisual e Contribuição
A etapa brasileira do projeto incluiu a produção de registros audiovisuais — fotografias e vídeos com entrevistas — junto a pessoas situadas nas periferias existenciais e geográficas da Amazônia.
Os registros foram realizados a partir de uma escuta qualificada, em diálogo com agentes pastorais locais e em consonância com critérios éticos e metodológicos definidos pelo DSDHI. As entrevistas deram visibilidade a sujeitos historicamente marginalizados — migrantes, indígenas, populações ribeirinhas, pessoas LGBTQIA+, idosos e lideranças comunitárias — convertendo experiências de vida em narrativas visuais e testemunhos humanos.
O material audiovisual coletado foi encaminhado ao Vaticano e passou a integrar a base internacional do projeto Doing Theology from the Existential Peripheries, hoje disponível publicamente na plataforma oficial do Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral.
Mais do que documentação, esses registros reafirmam a imagem e a escuta como dispositivos legítimos de produção teológica, deslocando o centro da reflexão para as margens.
🔗 Projeto internacional:
https://migrants-refugees.va/theology-from-the-peripheries/
Discernimento e Impacto
Concluída a etapa de escuta, teve início o discernimento teológico coletivo, no qual os relatos foram interpretados à luz da Sagrada Escritura e dos principais documentos do pontificado de Francisco, como Evangelii Gaudium, Laudato si’ e Fratelli tutti.
Os resultados do processo foram compartilhados com Igrejas locais, instâncias do Vaticano e a comunidade acadêmica católica internacional, consolidando o projeto como um exercício teológico vivo, no qual experiência humana, imagem e reflexão se articulam como fundamentos do pensamento teológico contemporâneo.
Ficha Técnica
Projeto | Fazendo Teologia a partir das Periferias Existenciais
Instituição | Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral (Vaticano)
Abrangência | Internacional (recorte Brasil / Amazônia)
Ano | 2022